15 de novembro de 2011

Egito: a campanha eleitoral

10/11/2011, Nate Wright, Middle East Research and Information Project, MERIP
http://www.merip.org/mero/mero111011
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


“Você só falou dos problemas. Não disse coisa alguma sobre soluções” – diz um homem; a multidão aplaude. Saqr foge da pergunta: fala do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Os problemas do país começarão a ser resolvidos, “quando o povo eleger a pessoa certa” – diz ele.

Moradores do bairro Darb al-Ahmar, na cidade do Cairo, reuniram-se num café de bairro, numa 6ª-feira no final de outubro, para começarem a organizar no bairro o partido político fundado por ativistas da praça Tahrir. Os homens que jogam gamão e tomam chá são membros do Partido Al-’Adl (ar. Adl, “justiça”: “Partido da Justiça”)[1], um dos 35 novos partidos que buscam participar do próximo governo egípcio. Logo aparece uma mesa e um microfone na entrada do café.

O primeiro turno das eleições parlamentares, marcadas para começar dia 28 de novembro, acontecerá em menos de um mês, mas a campanha eleitoral está apenas começando. Durante os oito meses, desde as manifestações gigantes no Cairo e outras grandes cidades, que levaram à fuga do presidente Mubarak para Sharm al-Sheikh, os políticos egípcios viram-se envolvidos em difíceis discussões sobre a nova legislação eleitoral, para a formação de alianças partidárias e sobre cronogramas eleitorais – discussões complicadas ainda mais por decisões arbitrárias, tomadas pelo conselho militar ainda governante –, numa turbulenta transição política. Resultado disso tudo, muitos partidos lançaram-se às eleições, alguns deles com a pressa de alunos obrigados a fazer a lição de casa no ônibus que os leva para a escola.
Na primeira sessão pública, no café Nasif, o Partido Al-’Adl é o quarto partido que os moradores de Darb al-Ahmar veem por ali, mas o primeiro novo partido. Os outros – a Fraternidade Muçulmana, o Al-Wafd e o Al-Ghad – todos da oposição a Mubarak – são partidos políticos com longa experiência de concorrer a eleições parlamentares.

A agenda daquela reunião do Partido Al-Adl, formado por ativistas da praça Tahrir nas semanas posteriores à queda de Mubarak, visa a oferecer a plataforma de um genuíno novo partido político, a egípcios que pouco ouviram falar nem de plataforma nem de partido políticos genuínos.

Gamal ‘Ali Hasan decidiu participar daquela assembleia de bairro no café, porque sua irmã, Nadya, é candidata do partido ao parlamento egípcio. Seu amigo, Muhammad Mahmoud, veio só para dar apoio moral: Muhammad já decidiu que votará em candidatos da Fraternidade Muçulmana e do Partido Liberdade e Justiça. Ao lado dele, Mahmoud Hasan Husayn, jovem e bem vestido, defende o Partido Nacional Democrático (NDP), partido de Mubarak, que governou o país mediante vasta rede de corrupção e nepotismo. Diz que a “revolução sem líderes” da praça Tahrir lançou o país ao caos. “Se [a revolução] tivesse um líder” – Muhammad responde, gritando como ele – “teria sido golpe de estado!”

“O que é que vocês vão fazer?”

Às 10h, quando o Cairo começa a acordar, um dos principais candidatos do Partido Al-’Adl no distrito de Qasr al-Nil, Ahmad Saqr, pega o microfone para apresentar seu partido a um grupo de 75 homens que andam pela calçada e vão parando para ouvi-lo. “Nosso projeto é justiça” – diz ele. – “Justiça e segurança”. Fala de crianças abandonadas pelas ruas e de desemprego, de sua visão de um parlamento fortalecido, com autoridade para monitorar o executivo e exigir transparência do governo. Fala de reformas na educação e no vasto aparelho de segurança, da abolição dos monopólios. Em seguida, o público é convidado a fazer-lhe perguntas.

“Você só falou dos problemas. Não disse coisa alguma sobre soluções” – diz um homem; a multidão aplaude. Saqr foge da pergunta: fala do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Os problemas do país começarão a ser resolvidos, “quando o povo eleger a pessoa certa” – diz ele.

Outro homem pede detalhes da reforma da educação que o partido se propõe a fazer. Saqr diz que, depois da reunião, poderá conversar com cada um, sobre pontos específicos. “Anuncie seu programa para todos, em público” – grita alguém. – “Você falou da educação. Então diga: “O que é que vocês vão fazer?” Saqr tenta responder, mas sua voz é abafada por gritos dos presentes, que exigem detalhes do plano de reformas.

Saqr deixou-se prender numa curiosa armadilha: o principal candidato de um partido que se orgulha de ser mais pragmático que ideológico, não tem detalhes a oferecer sobre as reformas que prega.

No início da semana, a porta-voz do Partido Al-’Adl, Noura Sulayman, passou uma longa tarde detalhando a alguns candidatos a plataforma do partido, num quartel-general de campanha deserto, que só se enche de gente à noite, depois do horário de trabalho, quando os voluntários aparecem. Falou de planos para introduzir o pensamento crítico nas escolas, acabar com a aprendizagem por ‘decoreba’ e repetição; requalificação e retreinamento para os professores; lançamento de um programa de novos funcionários públicos para criar empregos; reestruturação da legislação para pequenas e médias empresas; afastar as odiadas forças de segurança das atividades diárias de policiamento; e descentralizar a polícia, para torná-la mais transparente para as comunidades locais. Mas Saqr, político amador, num país de eleitores que nunca votaram, não consegue dar aos moradores de Darb al-Ahmar a resposta que querem ouvir. Várias outras vezes deixa-se prender na armadilha de frases de efeito, que pouco explicam.

Sulayman reconheceu que os candidatos não conseguem falar com clareza aos eleitores, nos eventos de campanha. “Quase sempre, o que dizem paira acima do nível do chão, onde vivem os eleitores” – diz ela. O Partido Al-’Adl está preocupado com que outros partidos, a maioria dos quais ainda não apresentou qualquer plataforma, roubem suas ideias.

Mas os presentes querem mais. “Diga o que vai fazer para acabar com a tortura” – grita outro homem. A resposta de Saqr não o satisfaz, o homem repete: “Quero saber é como!” A reunião tende perigosamente a escapar de qualquer controle, e moradores locais começam a manifestar-se contra Saqr. Quando um dos participantes o critica por ter iniciado seus negócios em Dubai, Saqr responde que sua empresa importa componentes de computador para empresas egípcias. “Não”, diz alguém em defesa do candidato, “diga que aqui só há ladrões, e que em Dubai não há ladrões”, referindo-se à prática, no governo Mubarak, de cobrar propinas dos empresários. Hasan apela à multidão. “É a primeira vez que um jovem vem a esse bairro” – diz ele. “Está aqui como nosso convidado e temos de respeitá-lo”. Ao final da reunião, a hostilidade desaparece. Muitos saúdam calorosamente o candidato. Mahmoud, que saiu na metade da reunião, depois de acusar o candidato de não responder as perguntas do público, voltou. Diz que saiu para arregimentar mais pessoas para a reunião. “Saqr é boa pessoa”, diz ele, sobre o candidato. “Mas vai ouvir o que outros lhe digam.”

Nada disso significa que a equipe do Partido Al-Adl tenha concluído o trabalho. A cidade permanecerá acordada ainda por muitas horas, e o partido tem menos de um mês para tornar-se identificável e visível, numa paisagem confusa, na qual mais de 55 partidos políticos disputam os votos dos eleitores. Depois da meia noite, Saqr reúne um pequeno grupo de membros do partido e deixa o café, continuando uma longa noite de campanha pelas ruas estreitas de Darb al-Ahmar.

Nascimento do partido

O Partido Al-Ad formou-se logo nos primeiros dias depois da partida relutante de Mubarak, quando a derrubada de um dos líderes mais “estáveis” do mundo árabe transformou o que poderia não ter passado de um momento único, acontecido só na Tunísia, em levante popular que se alastrou por toda a região. O povo vencera, como então parecia, e começava a construção de um novo Egito. Dia 28 de fevereiro, ativistas que se haviam encontrado na Praça Tahrir resolveram criar um partido que conseguisse manter-se à margem das batalhas ideológicas sobre livre mercado ou mercado justo, estado islâmico ou estado secular. Um mês depois, o Partido Al-Adl começou a receber assinaturas de membros. “Havia a percepção generalizada de que a revolução fora vitoriosa”, diz Sulayman. “O passo seguinte foi reconstruir e formar novo governo”.

O partido reúne a energia de jovens profissionais, formados, que dedicam ao partido noites de trabalho voluntário. Muitos deles viajaram ou estudaram na Europa ou EUA e são fluentes em inglês. Há entre eles dentistas e arquitetos, professores de escolas e universidades, e pelo menos um especialista em engenharia genética fotografa para registro muitos dos eventos do partido. Sulayman morou nos EUA, Grã-Bretanha e Líbano, e trabalhou durante nove meses, como voluntária, na campanha eleitoral de Bill Clinton, em 1992. Inspira-se no sucesso do partido islamista turco “Justiça e Desenvolvimento”, e diz que muitos, no Partido Al-Adl, estão “estudando a campanha eleitoral de Obama”. Vêm da geração Twitter no Egito. Falam bem, são ambiciosos, abraçam o que entendem como “uma perspectiva global”, mas ainda são minoria num país em que a pobreza e o analfabetismo estão aumentando. Muitos deles trabalharam em Organizações Não Governamentais; a experiência que trazem de projetos de desenvolvimento de comunidades está sendo encorpada na estratégia do novo partido. (...) Al-’Adl gosta de pensar sobre o próprio partido como uma espécie de partido ‘diferente’: em parte, é grupo político de pressão; em parte, é grupo que trabalha para o desenvolvimento local de comunidades; e em parte, é partido revolucionário.

Os quadros partidários falam de um desejo de transformar a sociedade, não de apenas representar a sociedade. “Temos de mudar o que se entende como normas culturais, como a higiene, por exemplo; como tratamos os outros na rua, nosso senso de comunidade” – Sulayman. “Passamos por verdadeira ruptura cultural e temos de começar a reconstruir”. Umar Bakdash, responsável por vetar candidatos potenciais, espera que os candidatos tragam ideias “que mudem o modo de pensar das pessoas”.

Depois de ter completado sua lista de candidatos para as eleições parlamentares, o Partido Al-Adl passou a operar em ritmo de campanha eleitoral. Os ativistas orientaram o trabalho para as áreas nas quais esperam obter mais votos. Todas as noites os candidatos participam de reuniões em bairros, para disseminar a ideia de que é preciso eleger um Parlamento ‘técnico’, que supere diferenças de ideologia e dedique-se a buscar um governo que funcione, em termos de desempenho e eficácia. Segundo Sulayman, o partido está tentando separar-se da imagem das manifestações de rua e de trabalho social nas comunidades, para se reapresentar como força legislativa potencial. “Os partidos políticos chegam ao governo e lutam pelo povo” – diz ela.

Mas o novo modelo de política tecnocrática não está encontrando eco no Egito. O novo campo político recém aberto no Egito andou, até aqui, de uma crise para outra, em clima de intensa paranóia e incerteza, que deixou em frangalhos a atmosfera de unidade revolucionária inicial. Islamistas e secularistas vêm-se frequentemente engolfados em discussões azedas. Resultado disso é que muitos egípcios já tomam como sinônimos os adjetivos “secular” e “ateu”.

Os liberais continuam a suspeitar da validade dos compromissos com a pluralidade assumidos pelos partidos islamistas, com vistas a uma nova Constituição, que deve ser redigida no próximo ano. “Você tem ouvido o que dizem esses que ‘falam em nome de Deus’. Você tem ainda alguma esperança de que a democracia egípcia durará mais que a primeira legislatura parlamentar?” – perguntou Naguib Abadir, coordenador executivo do partido Egípcios Livres.

Paisagem eleitoral

A mídia internacional apresentou alguns ativistas jovens, usuários habituais da Internet e ativos nas redes sociais, como os que se reuniram no Partido Al-Adl, como agentes que acenderam a fagulha dos protestos revolucionários no Egito. Mas nos meses seguintes, à medida que o país se aproxima das eleições parlamentares, e a campanha até as eleições converteu-se em duro trabalho de abrir caminhos e sustentar discussão direta com os moradores das periferias, aquele grupo inicial foi-se convertendo, cada vez mais, em minoria marginalizada.

Uma nova geração capacitada está deslocando os políticos mais velhos, apostando na possibilidade de capitalizar, em termos políticos, o momento de visibilidade pública que hoje vivem. Ativistas que tiveram papel de destaque nos protestos afastaram-se de partidos como a Frente Democrática e o Partido Tagammu. Membros mais jovens da Fraternidade Muçulmana, frustrados ante a liderança fechada do grupo, criaram já quatro partidos diferentes. E imediatamente foram expulsos da Fraternidade, por desobediência.

“Muitos jovens sentiram-se frustrados dentro dos partidos em que militavam, porque [os políticos mais velhos] viram [a revolução] como uma chance para eles mesmos, como ocasião para voltarem a aparecer sob nova luz, nos mesmos palanques de sempre” – disse Shadi Ghazali Harb, destacado ativista que se separou da Frente Democrática e criou o Partido da Consciência. “Naqueles partidos, os jovens não encontraram nenhuma oportunidade para se destacar e liderar.”

Muitos partidos fundados por jovens ativistas tiveram de trabalhar muito para preencher as exigências para criar novos partidos. Alguns não conseguiram reunir as assinaturas de 5.000 proponentes, exigidas para o registro oficial como partido político. Grupos que se destacaram muito durante a revolução, como a Coalizão da Juventude Revolucionária [ing. Revolutionary Youth Coalition] e o Movimento 6 de abril, continuaram a fazer grandes manifestações. Mas não conseguiram traduzir sua voz pública em representação partidária com peso parlamentar potencial. O Partido da Consciência só obteve o registro oficial em setembro. Deram início a projetos de desenvolvimento sustentável em pequenas comunidades e vilas, em distritos menos competitivos – “estratégia do oceano azul”, como dizem os membros do partido – na esperança de conquistar alguns assentos no Parlamento. Mas Harb sabe que seu partido não terá papel significativo na primeira legislatura. “Trabalhamos para ser uma força eleitoral daqui a dez anos” – diz ele. “Queremos ser maioria significativa em dez anos, com representação forte daqui a cinco anos.”

Em pesquisas divulgadas em setembro, o Partido Al-Adl é o único dos partidos fundados por jovens que aparece ter condições de disputa, dentre os demais novos partidos. Os números não são impressionantes. A ‘melhor’ pesquisa mostra o Adl com 4,7% dos votos de eleitores já decididos (menos que a metade do necessário para eleger um representante no Parlamento). Mas, no quadro difuso dos muitos partidos, o Al-Adl manteve-se sempre visível.

Dentre os novos partidos, só dois grupos mantêm-se também visíveis no quadro eleitoral, mas os dois são fortemente identitários. Os partidos salafitas arregimentaram o apoio de uma minoria significativa e de uma coalizão eleitoral; e o Bloco Egípcio converteu-se em porta-voz dos liberais em geral.

O Bloco Egípcio é liderado pelo Partido Egípcios Livres, fundado por vários dos mais destacados empresários egípcios. Empurrado pela fartura de fundos dos próprios empresários e pela experiência gerencial, o partido foi rapidamente constituído e já estava em campo, em campanha, bem antes de todos os demais. Uma massiva campanha publicitária atraiu rapidamente mais de 120 mil membros. “Só nós temos o conhecimento e a competência organizacional para levar o Egito na direção do futuro” – diz Abadir, gerente de organização do Partido. As notórias discussões entre Naguib Sawiris, empresário conhecido e fundador do Partido, e os islamistas, inclusive um controverso micropostado no Twitter em junho (mostrava Mickey Mouse e Minnie vestidos como islamistas conservadores), contribuíram para associar ao partido a imagem de combatente a favor do secularismo. O Partido Egípcios Livres foi logo procurado, para coalizão, pelo Partido Tagammu’ (único partido da oposição de esquerda admitido no governo de Mubarak), e pelo Partido da Social-Democracia Egípcia[2], recheado de conhecidos analistas políticos. Esse bloco espera ocupar o palco, no próximo Parlamento, como oposição furiosamente liberal. “Será grande surpresa, se o Bloco Egípcio não alcançar número suficiente de cadeiras no Parlamento que lhe permita ser minoria com poder de bloquear votações” – disse Abadir. Dificuldade, contudo, é que, ao assumir posição muito beligerante contra os partidos islamistas, o Bloco Egípcio já alienou parte muito significativa de uma sociedade que é, sobretudo, religiosa. Dificilmente conseguirão atrair nomes que já não se identificassem, desde antes, com sua visão cosmopolita.

Sem que os novos partidos de políticos mais jovens e as lideranças políticas seculares consigam maior visibilidade eleitoral, tudo faz crer que partidos já existentes desde muito antes da revolução ainda serão maioria no primeiro parlamento eleito depois da revolução do Egito.

Uma coalizão eleitoral, a Aliança Democrática, entre o Partido Liberdade e Justiça da Fraternidade Muçulmana, e Partido Al-Wafd, anunciada em junho, pôs em polvorosa os políticos egípcios. A Fraternidade Muçulmana investe em suas credenciais islamistas históricas e numa vasta rede de assistência social às populações mais pobres, estabelecida e operante em todo o país. E o Partido Al-Wafd – fundado em 1919, banido depois da Revolução dos Oficiais Livres de 1952 e refundado em 1983 – é partido tradicional das elites sociais, mas o papel histórico dá-lhe a sensação de serem partido ‘naturalmente’ representativo que talvez não resista às novas condições da disputa eleitoral no Egito. “Os egípcios são naturalmente Wafdistas, desde 1919” – disse ao jornal New Cairo Margret ‘Azir, candidata do partido, ao ser perguntada se a preocupava a emergência dos partidos da juventude.

A parceria entre os mais tradicionais islamistas e os partidos liberais no Egito é, no mínimo, estranha. Uns poucos membros destacados do Partido Al-Wafd manifestaram-se contra a cooperação com a Fraternidade Muçulmana, e mudaram-se para o Bloco Egípcio. Os dois partidos encontram oposição interna à aliança e têm mostrado relutância a apoiar manifestações que exigem o fim das leis militares de emergência, o que fez aumentar a desconfiança de que esses dois partidos já articulem uma contrarrevolução. Teme-se que o principal ator político no Egito, o Exército, tenha já um acordo com a Fraternidade Muçulmana para impedir qualquer mudança estrutural na liderança política do país.

A Aliança Democrática rapidamente se tornou, para todos, o inimigo eleitoral a ser derrotado. A Aliança Democrática é vista por membros e por opositores como a mais provável coalizão de maioria que brotará das próximas eleições. Atraiu os partidos salafitas recém formados e grande número de pequenos grupos de influência, totalizando aliança que, no momento máximo, chegou a reunir 30 grupos, segundo Muhammad Al-Baltagi, secretário-geral do Partido Liberdade e Justiça, no Cairo. O cenário parece estar pronto para a batalha eleitoral entre a Aliança Democrática, grande coalizão comandada pelos políticos mais organizados e mais experientes do país, e o Bloco Egípcio, que aspira a ser a oposição liberal. Partidos que optem por programas próprios, como o Partido Al-Adl, talvez consigam alguns assentos no Parlamento, mas serão facilmente deslocados nas disputas políticas pelos grandes blocos.

O colapso das alianças

Tudo veio abaixo nas primeiras semanas de outubro. O Partido Al-Wafd anunciou que estava deixando a Aliança Democrática, mas logo depois se desmentiu. Na sede do partido, numa velha mansão no bairro luxuoso, mas que já conheceu melhores dias, de Duqqi, no Cairo, uma reunião entre membros da aliança, organizada para exibir uma frente de partidos unidos, descambou para a pancadaria. Os jornalistas foram expulsos da sala. Nos dias seguintes, ficou claro que o Partido Al-Wafd concorreria em estrada própria às eleições parlamentares. Foi a primeira fenda que se abriu na paisagem eleitoral que, em seguida, seria reduzida a cacos.

No complicado processo eleitoral criado pelas regras do Exército egípcio, os eleitores escolherão entre várias listas de candidatos a dois terços dos assentos parlamentares correspondentes a cada distrito. Depois, escolherão numa longa lista de candidatos que competem, como candidatos independentes, aos assentos parlamentares restantes. Esse sistema implica que partidos que se unam em coalizões eleitorais são forçados a estabelecer uma única lista eleitoral para cada distrito eleitoral. Se a lista receber número suficiente de votos para dois candidatos naquele distrito, os dois primeiros nomes da lista recebem um assento cada um, no Parlamento. Quando os grupos afinal entenderam que os blocos teriam de negociar para definir quais os primeiros nomes a aparecer em primeiro lugar em cada distrito, as alianças eleitorais desmoronaram. O Partido Liberdade e Justiça foi acusado de monopolizar as listas com seus próprios candidatos, rompendo compromisso antes assumido de que os irmãos da Fraternidade Muçulmana só concorreriam a 30% dos lugares no Parlamento. Al-Baltagi disse que os nomes apresentados por outros partidos não faziam qualquer diferença. “Não foram aceitos porque não cumpriram as exigências mínimas”, disse ele. Gamila Isma’il, destacada ativista, abandonou a aliança, ao descobrir que apareceria em terceiro lugar na lista de seu distrito eleitoral.

O Bloco Egípcio, que reunira sob suas asas vários partidos jovens, liberais, de esquerda e marxistas, também teve problemas. Quando os líderes partidários reuniram-se, dez dias antes de esgotar-se o prazo para registro de candidaturas, o Partido Egípcios Livres apresentou candidatos do ex NDP. Outros partidos protestaram, mas os Egípcios Livres defenderam suas escolher, sob o argumento de que aqueles candidatos eram nomes respeitados e populares em suas áreas. Não havia muitos nomes de ex-membros do NDP na lista, mas Marwa Farouq, membro da secretaria-geral da Aliança Popular Socialista Egípcia, formada de jovens que deixaram o Partido Tagammu’, disse que se tratava de uma questão de princípios. “Dissemos a eles ‘Vocês estão apostando em carta perdida, porque ex-membro do NDP, ao chegar ao Parlamento, só pensará em seus próprios interesses” – contou ela. “‘Ele não acredita no partido.’” Vários partidos deixaram o Bloco Egípcio, e criaram o grupo A Revolução Continua, reunião de vários partidos jovens e ativistas independentes, inclusive os que foram expulsos da Fraternidade Muçulmana, que focaram as atenções em aliviar a mão de ferro dos militares sobre o país.

Os Egípcios Livres não são o único partido mediante o qual ex-membros do regime de Mubarak, estimados por alguns em mais de 3 milhões, tentam infiltrar-se de volta na vida política do país. Membros do Partido Al-Wafd na Península do Sinai separaram-se publicamente do partido quando encontraram remanescentes do antigo regime incluídos na lista de candidatos do Partido Al-Wafd em suas respectivas áreas. O Partido da Social-Democracia Egípcia permitiu que ex-membros do NDP se unissem aos social-democratas, com a aprovação de líderes partidários locais.

“Não havia vida política no Egito. Por isso, quem quisesse participar tinha de alistar-se no NDP” – disse Basim Kamil, candidato do partido. “Não se pode dizer que 3 milhões de egípcios são bandidos”. Foi questão muito discutida no Egito, quando das tentativas para aprovar lei que baniria todos os membros do antigo regime da vida política nacional, até que a lei foi rejeitada[3]. O sistema de apadrinhamento do sistema do NDP incluiu membros conhecidos de grandes famílias, sobretudo no Alto Egito, e muitos partidos, desesperadamente necessitados de melhorar o próprio perfil eleitoral fora do Cairo, parecem estar recheando suas listas eleitorais com qualquer nome que apareça. “Todos esses partidos estão à caça de candidatos” – disse Magid Sorour, cuja organização, One World Foundation, monitora o processo das eleições. “Descobrimos que muitos candidatos de vários partidos da oposição são ex-membros do NDP.”

O futuro parlamento egípcio mostrará, provavelmente, alguns rostos bem conhecidos. Membros do NDP estão emergindo em vários novos partidos, inclusive no Partido da Unidade, fundado pelo ex secretário-geral do NDP, Husam Badrawi, que diz que lançará 100 candidatos. Mais de 6.000 pessoas registraram-se para concorrer a 1/3 dos assentos no Parlamento reservados aos candidatos independentes. Relatos sugerem que muitos deles vêm do partido governante no governo de Mubarak. Se se saírem bem nas urnas, um contingente de ex-membros do NDP acrescentará mais uma camada de incerteza a um parlamento fraco, já fracionado em muitos pequenos partidos. O partido governante sob Mubarak jamais mostrou qualquer consistência ideológica e o que pensem os seus membros continua a ser perfeito mistério. Pode acontecer de assumirem firme posição a favor de reformas, como tentativa de satisfazer os novos eleitores. Mas também há quem tema que ex-membros do NDP, habituados a um sistema de apadrinhamento e favor, simplesmente ponham seus votos em leilão, para servir a quem pague mais. Atores ativos por trás do palco poderão então exercer influência completamente alheia ao projeto dos eleitores, o que desestabilizará ainda mais qualquer consenso sobre questões cruciais das reformas. A questão mais importante que o país enfrentará será o papel a ser especificado na nova constituição para os sempre poderosos generais egípcios.

Os generais no poder

O Egito sempre foi governado por oficial militar desde que os Oficiais Livres tomaram o poder em 1952. Ao ritmo em que diminuía a capacidade de combate do exército egípcio, a instituição assumiu vasto portfólio de interesses econômicos, produzindo de tudo, de macarrão a hotéis de luxo. O exército foi parte integral do regime de Mubarak, mas os egípcios tendem a separar o exército, da brutal força policial e do partido governante corrupto. Quando soldados em veículos blindados entraram nas ruas, dia 28 de janeiro, depois de batalha sangrenta entre manifestantes e a polícia, foram saudados como heróis. Não atiraram contra os manifestantes e, nos dias mais negros de caos e violência no Cairo, agiram como pequenos oásis de estabilidade. (...)[4]

O controle do país passou para um Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF), grupo de altos generais que buscaram alavancar a própria popularidade, para proteger a própria autonomia em qualquer futuro governo. Alguns deles definiram a revolução egípcia como golpe de estado, movimento esperto, para que os militares pudessem usar os protestos revolucionários como cobertura para o expurgo dos principais apoiadores de Mubarak, muitos dos quais viveram em confronto permanente com os líderes militares e, na prática, governavam o país como bem entendiam. Mas tudo leva a crer que, quando os militares posicionaram-se contra Mubarak, ele mesmo ex-piloto da Força Aérea egípcia, pensavam só em obter prerrogativas paroquiais: preservar a própria infraestrutura econômica, assegurar a continuidade do apoio financeiro que recebem dos EUA e manter o controle da política exterior do país.

No poder, o Conselho Superior das Forças Armadas tratou de impor leis de emergência para fazer prisões em massa – mais de 12 mil, desde fevereiro – e incitar a hostilidade popular contra dissidentes que criticassem suas decisões. Dia 23 de julho, um membro do Conselho Superior das Forças Armadas acusou pela televisão o Movimento 6 de Abril, cujos protestos ininterruptos haviam-se tornado espinho na pele do Conselho, de tentar instigar a população contra o exército. Declaração distribuída depois pelo Conselho, acusava o Movimento 6 de Abril de servir a “agendas estrangeiras”.

A batalha entre os generais e os ativistas que continuavam a insistir em transição rápida para governo civil, dividiu o país. Muitos começaram a sentir que os protestos estavam causando dificuldades para a vida de muitos, por causas insignificantes. Os que eram alvos dos ataques dos militares interpretaram a relutância de algumas forças políticas, que demoravam a se manifestar, como prova de que já teriam firmado um pacto com os militares, para promover a contrarrevolução. A disputa, daí em diante, deteriorou cada vez mais depressa. Os manifestantes, na maioria liberais e seculares, foram apresentados como hostis à democracia, porque levavam suas reivindicações para a rua. E os islamistas foram apresentados como hostis à democracia porque não o faziam.

Nos últimos dias de junho, em cerimônia que homenagearia a memória das vítimas dos protestos revolucionários de fevereiro, realizada no Balloon Theater, no bairro de Agouza, no Cairo, eclodiu um confronto entre as forças de segurança e familiares dos mortos, presentes à cerimônia. A batalha rapidamente espalhou-se, chegou à praça Tahrir e, pela manhã, havia pelo menos 1.140 feridos. Em seguida, dia 8 de julho, milhares de pessoas acorreram ao que seriam os maiores protestos acontecidos na Praça Tahrir desde a deposição de Mubarak. Políticos e ativistas puseram de lado as disputas sobre a futura constituição do país e, pela primeira vez, egípcios de todo o espectro político manifestaram claro desagrado sobre questões que, todas elas, estavam sob o comando do Conselho Superior das Forças Armadas: a libertação de policiais acusados de assassinar manifestantes; a lentidão da reformas nas leis de segurança; o julgamento cada vez mais frequente de ativistas presos nas manifestações de rua, por tribunais militares; e a violência crescente nos confrontos entre manifestantes e a polícia antitumultos. Familiares dos mortos durante a revolução e um pequeno contingente de ativistas iniciaram um sit-in na praça, que provocou engarrafamento monstro e praticamente paralisou o Cairo.

Os generais responderam com várias concessões. Em uma semana, o ministro do Interior Mansour Al-’Isawi assinou a demissão de mais de 600 policiais, acusados de abusos durante os protestos. O ex-ministro do Interior do governo Mubarak, Habib Al-’Adli, foi condenado por desvio de fundos públicos – tentativa de conter a crescente irritação popular contra a lentidão dos processos criminais contra membros do antigo regime. O ministro das Finanças assinou aumento de mais de 50% no salário dos funcionários públicos. Duas semanas depois, ante relatos de que os militares estavam impedindo qualquer mudança no gabinete do primeiro-ministro Isam Sharaf, foram nomeados novos ministros.

Observadores próximos não demoraram a ver que as concessões não eram exatamente o que pareciam ser. Membros chaves do antigo gabinete, como os ministros do Interior e da Justiça sobreviveram à ‘reforma’ e permaneceram em seus cargos. A lei de emergência, fonte de legitimidade para as táticas violentas dos militares, foi mantida inalterada. Só 37 dos policiais demitidos eram de fato acusados de atirar contra manifestantes. Magda Butrus, pesquisadora do Instituto Egyptian Initiative for Personal Rights, listou cerca de 200 policiais militares ativos contra os manifestantes. “O ministro está vendendo as demissões como grande mudança no ministério do Interior, mas aquelas dispensas foram pura rotina e acontecem anualmente” – disse ela, pouco depois do anúncio oficial. “Alguns oficiais pedem aposentadoria, outros são promovidos e alguns são apenas transferidos de posto.”

Ao mesmo tempo, o Conselho Superior das Forças Armadas prosseguia na campanha para denegrir a imagem dos manifestantes. Em fala transmitida por televisão dia 12 de julho, o porta-voz do Conselho, general Muhsin Al-Fangari, conclamou os egípcios a resistir contra “tentativas de impedir a restauração da normalidade no país”, referência mal ocultada aos manifestantes que fecharam a praça Tahrir. A fala enfureceu os ativistas. O Twitter encheu-se de críticas ao tom hostil da fala do porta-voz do Conselho. Mas a mensagem do Conselho Superior das Forças Armadas encontrou eco entre muitos egípcios. A manifestação que bloqueava a Praça Tahrir já durara três semanas. Os números caíam, e os manifestantes afastavam-se das questões consensuais para todos. Fecharam, por alguns dias, o acesso a um importante prédio da administração pública, próximo da Praça Tahrir, o que impediu que centenas de egípcios pudessem renovar as licenças para dirigir. Moradores da região davam sinais de cansaço com a persistente interrupção da rotina da vida.

Dia 1º de agosto, primeiro dia do Ramadã, centenas de militares e policiais surgiram sobre a praça Tahrir vindos de todos os lados. Os manifestantes, que se protegiam sob as tendas improvisadas, no opressivo calor da tarde, fugiram. Vários foram espancados, feridos e presos. As tendas foram destruídas. Jornalistas foram presos e aconselhados a nada filmar. A mídia internacional protestou, mas os donos de lojas na região aplaudiram as forças de segurança, depois de semanas de poucos negócios. A polícia ocupou a praça e o trânsito foi liberado. Os protestos de indignação duraram pouco e, embora aquela não viesse a ser a última manifestação de massa na Praça Tahrir, o ímpeto dos ativistas foi contido.

O Conselho Superior das Forças Armadas prosseguiu, sempre entre provocar e conciliar. Prendiam manifestantes por comentários contra os militares; em seguida, se as críticas aumentavam de tom, os manifestantes eram libertados. Prometeram cancelar as leis de emergência e suspender os julgamentos em tribunais militares, mas jamais cumpriram qualquer dessas promessas.

Outro ponto de virada ocorreu dia 9/10: quando os canais de televisão mostraram imagens de soldados em veículos blindados atacando manifestantes coptas à frente do prédio da televisão estatal, o povo ficou chocado. Os militares perderam imediatamente o brilho e qualquer tipo de apoio com que ainda pudessem contar entre a minoria copta, ainda mais quando os militares tentaram responsabilizar os coptas pelos ataques. A imprensa oficial noticiou que os manifestantes teriam atirado contra soldados egípcios, e que teriam matado dois soldados. O Comando Superior das Forças Armadas declarou que os cadáveres teriam sido sepultados em local secreto e não divulgou os nomes dos soldados mortos.

Tudo acontecia como se os militares estivessem outra vez usando os velhos truques do regime de Mubarak, criando crises para fugir das críticas que recebiam e culpando as minorias pelos problemas. Falaram também de “mãos estrangeiras”. Quando o clamor popular tornou-se forte demais para ser contido com artimanhas, os militares fizeram algumas concessões, todas elas, de fato, impostas sem qualquer discussão pública. O exército recusou-se a ceder o controle sobre o ritmo da transição e sobre os termos dos acordos firmados com as forças políticas. Quando o chefe do Conselho Superior das Forças Armadas, marechal de campo Muhammad Husayn Tantawi, apareceu numa manifestação de rua no Cairo, em trajes civis, dia 26/9, muitos temeram que estivesse começando a preparar terreno para lançar-se candidato à presidência. Logo surgiram cartazes no Cairo e em Alexandria, de propaganda de Tantawi. O Conselho Superior das Forças Armadas negou qualquer envolvimento na ‘campanha’.

A atitude dos próprios generais, o autoritarismo nas decisões e o modo como abordaram o período de transição, acabou por fazer com que até seus aliados políticos se voltassem contra eles. Em outubro, o segundo homem na hierarquia da Fraternidade Muçulmana, Khayrat Al-Shatir, disse à rede Al-Jazeera que convocaria o povo de volta às ruas, se os militares não deixassem o poder no prazo definido. “O povo não suportará mais tirania” – disse ele. Palavras muito fortes, da FM a qual, apenas três meses antes, declarara confiar nos militares. Em julho, Al-Baltagi dissera que “Na nossa opinião, o exército crê na revolução”.

A divisão surgiu quando os militares prometeram apresentar documento sobre os princípios constitucionais, antes das eleições parlamentares. Os liberais desejavam receber garantias de que uma nova constituição preservaria a liberdade de expressão e de religião. Os islamistas também pressionaram para que esse documento aparecesse, na expectativa de usar sua forte presença parlamentar para influir na redação de uma constituição, que deverá especificar a relação entre o Islã e o Estado. Quando, dia 1º de novembro, o vice-primeiro-ministro Ali Al-Salmi apresentou o tal documento aos partidos políticos, a Fraternidade Muçulmana e os líderes salafistas recusaram-se a participar do encontro. Outros, entre os quais Ahmad Shukri, líder do partido Al-Adl e Hafiz Abu Sa’da, ativista de direitos humanos, retiraram-se do encontro.

Pelo documento apresentado, o orçamento militar ficava fora da alçada de fiscalização pelo Parlamento; e os militares ganhavam novo papel: passavam a poder nomear a comissão que redigiria o primeiro esboço da Constituição e uma nova comissão constitucional, no caso de a primeira comissão nomeada não apresentar projeto de constituição no prazo de seis meses. Foi como uma declaração de independência dos militares. “Esse documento torna o Parlamento perfeitamente inútil” – disse Abu Sa’da, ao jornal independente Al Masry Al Youm. Mohamed ElBaradei, prêmio Nobel e ex-funcionário da OTAN, candidato potencial à presidência do Egito, postou a seguinte mensagem pelo Twitter: “As forças armadas não são nação acima da nação.”

Às urnas

Dia 28/11/2011, os egípcios irão às urnas, num extraordinário ato de fé. Padeceram durante nove meses, conjecturando sobre detalhes de um futuro democrático que, afinal, pode ainda não estar à vista e talvez nunca chegue. O Partido Al-’Adl, ainda que seus candidatos obtenham sucesso estrondoso, será, no máximo, poder minoritário num Parlamento fragmentado que ainda terá de superar suas diferenças, se quiser confrontar os militares e mandá-los andar no rumo da caserna. O novo parlamento eleito terá de convencer o povo de que o Parlamento é mais capaz de governar que os militares – e governar um país no qual a força policial está em colapso, a economia estagnou, e aumentam as demandas de uma população habituada a subsídios, único mecanismo que, fosse como fosse, impedia que os mais pobres morressem de fome. Se o novo parlamento não conseguir essa proeza, os militares se transformarão, de guardiães temporários do Egito, em poder competente para vetar quaisquer decisões dos corpos políticos.

O repentino colapso das alianças eleitorais significa que o Partido Al-Adl está hoje menos vulnerável a ser afogado por coalizões políticas amplas e estáveis. Têm melhores chances de conquistar maior número de assentos no Parlamento, que qualquer outro dos partidos jovens, mas não se iludem. “O que é bom para nós pode não bastar para outros” – disse Sulayman. – “Um bom número de assentos basta apenas para nos dar uma voz.” Mas sua plataforma tecnocrática anti-ideológica permanece sem ter sido testada, e a visão do partido, de um parlamento de traça as linhas da política nacional e fiscaliza o poder executivo pode não ser entendida por muitos egípcios.

No café Nasif, em Darb al-Ahmar, um morador do bairro queria um representante local forte, que arrancasse favores do governo central para o próprio bairro. Outro morador disse que os representantes dos partidos não se deveriam ocupar com detalhes do governo. “O Parlamento tem de escrever uma nova Constituição”, disse lá. “Esse é o trabalho do Parlamento.”

O maior desafio que o Partido Al-Adl enfrentará será abrir espaço para si mesmo, na cabeça do eleitor. Sem visão clara do que os egípcios desejam, todos os partidos gravitaram rumo ao centro. Até o Partido Egípcios Livres, de empresários e a favor dos negócios, já começa a tirar do bolso credenciais de defensores da justiça social: falam de “uma economia de livre mercado”, que seja “responsável por todas as classes sociais”. Quando se despem de suas cores políticas, todos os partidos mostram a mesma cara, e é difícil saber que promessas são reais e que promessas serão esquecidas para sempre imediatamente depois das eleições. A determinação do Partido Al-Adl, que não quer misturar-se nas escaramuças entre os liberais e os islamistas tem mantido o Partido fora da cobertura frenética da mídia, mediante a qual a maioria dos partidos vai conseguindo estabelecer diferentes identidades.

Semanas antes das eleições, os egípcios ainda não sabem o quê é o Partido Al-Adl e o que representa, problema também enfrentado por muitos dos partidos jovens, que não falam a língua nem usam as expressões do discurso político egípcio tradicional. “[Os partidos dos jovens] estão em situação ainda mais precária que outros, porque não manifestam nenhuma das ideias já profundamente enraizadas na sociedade” – disse Walid Kazziha, professor de Ciência Política na Universidade Americana no Cairo. “Mesmo assim, só eles manifestam uma tendência muito geral na sociedade egípcia, que é democrática, progressista e contrária a qualquer tipo de autoritarismo.”

Se e quando as novas gerações de egípcios, hoje, tomarem assento no Parlamento, afinal estarão ante o problema central de sua revolução: as multidões nas praças públicas de todo o Egito levaram a nação a um momento de crise radical, mas, depois, confiaram nos generais para despachar Mubarak. O exército egípcio tomará o rumo da caserna? “Se, dia 25 de janeiro, alguém tivesse pensado sobre o que provavelmente aconteceria, a revolução não teria acontecido” – disse Saqr. Naquele 25 de janeiro, ele chegou de Dubai, exclusivamente para participar da manifestação. Foi, do aeroporto, diretamente para a Praça Tahrir. “Nunca considero a chance de uma coisa dar certo.”

NOTAS

[1] Al-Adl (Partido da Justiça) quer ser partido de centro, criando uma ponte entre a Aliança Democrática e a Aliança Islâmica, dominadas pelos islamistas, e o Bloco Egício, dominado pelos liberais. Quer criar uma terceira coalizão, como uma ‘terceira via’. Teve papel importante na polarização da discussão política e atraiu descontentes dos dois lados, sobretudo os dissidentes da coalizão que governou sob Mubarak. (Mais sobre o partido em http://egyptelections.carnegieendowment.org/2011/09/22/al-adl-justice-party.)


[2] É o PSDB da tucanaria do Egito [NTs].


[3] Hoje, 15/11/2011, essa lei foi aprovada. Ver “Membros do partido de Mubarak, já legalmente extinto, podem concorrer às eleições de novembro” em http://www.panapress.com/-Members-of-Mubarak-s-dissolved-party-can-run-in-Egypt-elections---15-805078-32-lang4-index.html [NTs]


[4] Aqui, o texto original diz: “Uma semana depois da queda de Mubarak, os egípcios viram o exército líbio reduzir o próprio povo a pó, como que para lembrar o quanto os militares podem ser violentos contra o próprio povo.” Essa frase é absoluta imbecilidade. Foi deliberadamente omitida da tradução desse artigo, pelos tradutores, para que as boas informações que o artigo contém não tivessem de ser descartadas, por causa de uma intrusão de opinião pirada, de um repórter útil, como relator de fatos, mas perfeitamente inútil como analista. O povo líbio foi trucidado por aviões da OTAN-EUA, não pelo exército líbio, como todo o planeta sabe perfeitamente [NTs].